30 de abr de 2009

O Inocente

Foi num domingo de abril, quando o namorado de K... estava brincando com o Inocente, no corredor do apartamento e viu uma imagem de Jesus Cristo, em cima de uma mesinha com outros adornos e santos católicos.

O namorado de K... olhou para o Inocente, parou no corredor, segurando o garotinho pelo braço, suavemente, e quase que sussurrando, com ar de mistério, daqueles que prendem a atenção das crianças falava “... o que te falam sobre Jesus é lenda: apenas uma história; existem muitas pessoas que não acreditam em Jesus. Quando essas pessoas rezam elas não fazem o sinal da cruz e suas orações são destinadas a vários deuses diferentes” e olhando mais uma vez para o menininho confessou “eu mesmo, não acredito em Jesus nem em Deus e acho que as pessoas que vivem sem acreditar em nenhum deles vivem bem melhor”. O namorado de K... sabia prender a atenção do garoto, a magia entre eles era forte, e o mais velho, que admirava muito cada sorriso do Inocente, estendeu essas palavras de forma cada vez mais cativante para o menino. Percebia-se, se alguém tivesse os visto e ouvido sem interromper, que as palavras do namorado de K... eram com a intenção de informar o Inocente, assim como também fazia a respeito dos astros do rock and roll e de tantos outros assuntos.

O Inocente se divertia na companhia do namorado de K..., e isso o agradava de uma forma que nem sabia explicar às pessoas, sentia-se mais livre para falar o que quisesse e mesmo que pedido um silencio ou outro, ele falava.

Certo dia o Inocente ao passar pelo corredor onde tinha a mesinha e a imagem, deu meia volta e chamou B..., a mãe de K..., e contou o que namorado da filha da senhora havia dito à ele dias antes. A mulher ficou indignada com que o genro havia dito ao Inocente; sentiu que já não era possível tirar da cabeça do menino que outras pessoas tinham outras crenças, mas havia ainda de falar que deus existe e que ele deve orar a Jesus para conseguir boas coisas. Ficou ansiosa para ver o genro, era de se esperar que a sua doce rispidez e seu orgulho queriam uma explicação. Havia dois dias que o namorado de K... não aparecia por lá, o que levava B... a julgar que nesse dia apareceria ou, no mais tardar, no dia seguinte pela noite.

Dito e feito, às sete em ponto do dia seguinte o genro de B... estava tocando a capainha.

— Oi Amor — disse K..., sempre de sorriso meigo, abrindo a porta.

— Buhh! Vem cá pra você ver as coisas que eu montei — já gritava o Inocente puxando o namorado de K... pelo braço.

O genro com a namorada, entrando pela casa encontraram B..., que tinha feito bolo de fubá com café. B... era sempre hospitaleira com o genro, mesmo estando ainda zangada com aquelas coisas que ele tinha dito. E logo que entraram na cozinha a mulher lembrou de tudo que o neto tinha contado.

— Nossa, pega um café aqui. Põe a xícara aí pra ele filha. Tem pão também, aceita?

— Não, obrigado. Já estou até bem farto, comi após o trabalho. Claro, não negarei o cafezinho — dizia o namorado de K..., que também não era bobo, queria comer, mas aproveitava a situação para sempre fazer a sua média.

— O Inocente me disse que você falou algumas coisas de religião e sobre Deus ... essas crenças do povo ... essas coisas de existir e não existir.

— Ah, é! Falei pra ele algumas das coisas que eu penso e algumas que outras pessoas pensam. Acho necessário ...

— Religião cada um tem a sua ... seu “tipo” — interrompia-o B..., censurando o que diria.

— Não — continuava o genro, que conquistara o direito de voltar a falar com um olhar sorridente e minaz... é que eu ... eu acho necessário que as crianças sejam educadas com estimulação do conhecer, da investigação infantil. A criança que aprende a perguntar e tem respostas, sempre com as palavras medidas para a sua idade, aprende melhor a conhecer o mundo, são vários assuntos na cabecinha delas.

—Então vamos comer e deixar esse assunto pra lá — intervia K..., para que os discursos não se alongassem e acabassem perdendo o bom senso.

O genro se serviu do café e acabou por pegar um pedaço de pão com manteiga que a namorada já havia preparado.

— Mas tem coisas, como... essas... de religião, que eu acho que cada casa deve ter a sua e deve ser mantido o respeito — ainda falava a sogra.

— B..., a Senhora está dizendo que é pra eu não falar mais disso com o Inocente?

— É isso sim, não quero que ninguém intervenha na educação que eu dou ao meu neto.

K... olhava para o namorado com olhos de censura, querendo naquela face expressar que ele deveria calar-se e, mesmo ela se importando e conhecendo o pensamento dele, aceitar o que a sogra dizia-lhe.

— Não aceito me proibir desse tipo de assunto com o Inocente — começou novamente o namorado de K... —, isso é falta de respeito ... repressão às visões diferentes; ao conhecimento.

K... tentou interromper novamente, mas ele decidiu que ia ali despejar muita coisa. Para um observador como era, ver o pensamento daquela família enraizada em preconceitos e conceitos fariseus era um fardo que decidira aliviar de suas costas, ali, naquele momento.

— Eu só quero então falar uma coisa — começou, dando um gole do café, e prosseguiu educado e levemente sarcástico — ... tenho poucos anos, mas não acho que isso seja motivo para não poder falar para uma pessoa que sabe ouvir, mesmo sendo mais velha e minha gentil (sem ironia nessa parte, juro!) sogra, que eu sou ateu e creio que a vida sem busca espiritual e religiosa pode conter muito mais paraísos que a eternidade após a morte; vivo para o presente, não só pra ficar com frasezinha Carpe Diem, sim para descobrir os mistérios de todas as partes da Natureza e do Mundo, dos sentimentos, de como o homem ama, odeia; em “como?” e “porquê ?”, nessas perguntas, consiste a maravilha do Mundo, ela é a ponte para o Paraíso. Eu ouço queixa de muitas pessoas sobre o tédio, mas eu ouço também poucas histórias de pessoas que tem coragem de quebrá-lo, mas até aí é uma questão pessoal. Quero retomar meu ponto no assunto dizendo que se fixar em um dogma religioso é uma forma de entrar para o tédio mortal, dos piores... é aquele que você escolhe estar nele, inerte, entregando suas horas, suas opiniões e gostos aos mandamentos de um criador que já foi mais que refutado, ainda mais quando se pensa em ética ... ou ... a Senhora esqueceu que escravidão é quando as pessoas trabalham sem salário, com fome e sujeitas a penitências? O que isso tem haver com o assunto?

Tomou um ar e sentiu-se orgulhoso por falar firme e com ternura.

— Pois tem, tem tudo haver ... não são os padres que trabalham nessas condições, não são os eclesiásticos, mas sim os seus fies. Que por serem e para serem fies à doutrina e tradição do evitar o pecado, acabaram fies a esses charlatões e, cada vez mais, desleais a si mesmos, aos seus desejos e seus corpos. Vou além nisso, levo ainda ao pessoal — nesse momento todos na cozinha estavam já de olhos esbugalhados, ainda mais com essa última frase —, não consigo entender como uma mulher tão inteligente consegue deixar a filha dormir na casa do namorado mas esconde isso de todo o mundo, envergonhada de ousar ir contra a moral da sua religião... mas sinceramente eu sei... a Senhora foi educada na moral cristã, aprendeu que não pode pecar, mas peca; o fato é que sua religião permite o pecar e é o seu pecado que te faz ser cada dia mais religiosa. É um círculo sustentado pela imagem do padre que não te deixa pecar, mas caso peques, precisarás apenas de umas rezas para que tudo fique bem. A Senhora então reza, paga ainda um dízimo, o seu “obrigado por aceitar minha imundície”, acredita estar limpa e agradece por isso! Mas o que eu queria falar para o Inocente é que ele não precisa ser tão sujo quanto todo esse rebanho. Ele pode sorrir e orgulhar-se de sorrir, pode ter sentimentos nobres, pode saber por meio de estudos e carisma como lidar com as pessoas, pode crer que a morte é apenas a continuação da vida sem ele, e pode até depositar fé na morte, pois o corpo nutre a terra que nutre a vida que um dia morre ... e que quando ele nasceu ele não era culpado de nada, aliás era o mais puro possível.

Foi uma cena nunca vista naquela casa, nenhum deles tinham percebido o pequeno vulto na porta. O Inocente segurava um portarretrato com uma foto do seu batizado. Estava com os olhos alagados. Todos se assustaram, mas as frases haviam ecoado até o quarto do pequeno, não distante dali e ele viera ver. Assistira todas as frases finais. Dentro daquela cabecinha tinha um sentimento de vida, de querer viver. Correu para o rumo do namorado de K... e abraçou-o pela cintura, o mais alto que alcançara. Olhou para a avó com um pequeno medo, um sentimento de ansiedade pelo o mistério do momento que estava a vir, esperava ela dizer algo, mas ele se antecipou.

— Desculpa vovó, mas eu quero ser o Super-Herói.

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